Entenda por que 90% dos donos de carros elétricos geram energia em casa

Aumento nas tarifas e busca por mais sustentabilidade motivam proprietários que não moram em apartamento a investir na tecnologia

Conforme a frota de veículos elétricos cresce no Brasil, aumenta também a procura por métodos para alimentar esses automóveis de forma limpa e econômica. Até porque o custo da eletricidade vem subindo – desde 2001, segundo a própria Aneel, a tarifa encareceu mais de 230%. Em 2021, a projeção de aumento é de 13% e a possibilidade de um racionamento de energia é crescente.

A solução para escapar dessa conta é produzir energia em casa. Muitos brasileiros já se ligaram nessa tendência: segundo dados divulgados recentemente pela Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), o número de instalações de painéis solares em domicílios subiu 70% no país em relação a 2019. E segundo projeção da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), até 2050, o Brasil terá 18% de seus lares produzindo a própria energia com painéis fotovoltaicos.

Um dos fatores predominantes para esse aumento foi o barateamento da tecnologia, pois o preço médio dos equipamentos caiu entre 70% e 90% nos últimos anos. Ainda assim, não é um sistema exatamente acessível.

“O projeto pode variar de R$ 14 mil para casas mais simples a R$ 60 mil, dependendo do tamanho do imóvel, do perfil de consumo e do modelo de climatização”, afirma Wagner Cunha Carvalho, especialista em eficiência energética e hídrica da W-Energy.

 

Entre os benefícios prometidos ao consumidor, além de se livrar da conta de energia elétrica, estão a valorização do imóvel, a longa duração dos equipamentos (cerca de 30 anos), a facilidade na instalação e a certeza de produzir uma energia limpa, que não prejudica o meio ambiente.

ADESÃO GRANDE POR DONOS DE CARROS ELÉTRICOS QUE MORAM EM CASAS

 

“A instalação é um processo bem simples”, afirma Henrique Miranda, gerente de mobilidade e conectividade da BMW. “A grande questão de quem utiliza painel fotovoltaico hoje é casar a oferta que eles geram com a demanda que a pessoa tem”, diz ele. Quando a empresa instaladora é contratada, ele analisa o gasto médio da casa, a área disponível e o clima da região e determina quantos painéis devem ser instalados ali. É possível, se o cliente quiser, solicitar uma produção maior do que a sua demanda.

Possuir um carro elétrico acaba virando um incentivo direto para essa adoção. Segundo a Associação Brasileira dos Proprietários de Veículos Elétricos Inovadores (Abravei), mais de 90% dos proprietários de veículos elétricos que residem em casas instalaram painéis solares fotovoltaicos nas suas residências.

“Temos convicção de que veículos elétricos impulsionam a adoção de painéis solares fotovoltaicos”, afirma Rodrigo de Almeida, vice-presidente da entidade. “Basta olharmos nossos associados”, diz.

 

COMO FUNCIONA A PRODUÇÃO E A VENDA DE ENERGIA

 

As vantagens de ter painéis fotovoltaicos em casa não acabam por aí. Também é possível ganhar dinheiro com eles. Desde 2012, temos no Brasil a Resolução Normativa nº 482/2012 da Aneel, que estipula que não só o consumidor brasileiro pode gerar sua própria energia elétrica como também fornecer o excedente para a rede de distribuição de sua localidade. Isso mesmo: você pode vender eletricidade para a concessionária do seu estado.

É o chamado sistema “on-grid”, em que a residência puxa energia elétrica da rede se não está produzindo o suficiente para se sustentar (em dias nublados, por exemplo) e joga na rede quando está gerando mais do que consome (em dias ensolarados). Essa energia passa pelo medidor bidirecional (o relógio de luz), que registra tudo que foi “exportado” para a rede.

Após a pessoa instalar seus painéis fotovoltaicos e os inversores (aparelhos que convertem a corrente contínua dos painéis para a corrente alternada das tomadas) com uma empresa privada, ele pode solicitar uma vistoria gratuita da concessionária (Enel em SP, Selesc em SC, etc.), que faz a aprovação do sistema e instala, também gratuitamente, um medidor bidirecional na casa. A partir daí, a conta de luz vem com duas informações: a energia consumida e a energia injetada. Essa última é convertida em créditos que são abatidos da conta.

É possível compensar 100% do valor do consumo, embora o cliente ainda tenha que pagar todo mês uma taxa mínima chamada de Custo de Disponibilidade. Se a produção da residência exceder o valor da conta, esses créditos acumulam ou podem ser abatidos da conta de outra residência cujo registro esteja para a mesma pessoa (CPF ou CNPJ).

GERAÇÃO DE ENERGIA EM CASA PAGOU AS PARCELAS DO CARRO ELÉTRICO

 

O engenheiro civil Paulo Venceslau decidiu encarar essa aventura. “A escolha do carro elétrico foi por uma questão de custo. Em dois anos eu paguei em parcelas o que estaria pagando de combustível”, conta ele. Daí para transformar os telhados da casa em Brasília (DF) numa usina foi um pulo. “Eu moro numa casa grande, com gasto de energia alto. Aí pensei: ‘poxa, se eu aumento R$ 400 reais na minha conta porque eu tenho um carro elétrico, eu posso optar por instalar os painéis e esse valor sai de graça’”, conta. Foi isso que ele fez.

A ideia deu tão certo que Paulo acabou comprando um segundo automóvel elétrico. Sua casa hoje produz o máximo permitido por lei, cerca de 10 MW, e ele vende o excedente.

“Passados cinco anos da compra do primeiro carro, hoje eu posso dizer que o investimento está totalmente pago e meu carro é literalmente movido pelo Sol”, afirma ele.

 

E complementa: “Antes da entrevista, peguei uma conta minha de energia aqui e vi que tenho 30 mil kW a serem compensados ainda. Isso dá uns R$ 20 mil de energia que eu tenho pra compensar”, afirma.

Como inconveniente, Paulo cita a necessidade de ter seguro na instalação. “Depois de uns dois anos de instalados os painéis, deu um vendaval muito forte em Brasília, com ventos de 60 km/h, e aí destruiu meu sistema. Mas tinha seguro. Então eu recomendo que a pessoa sempre deixe em dia o seguro desses equipamentos”, argumenta o engenheiro civil.

Outra desvantagem é que, na lógica on-grid, a energia elétrica não pode ser armazenada em baterias. A casa da pessoa ainda fica sujeita a apagões porque, além de a energia não ser armazenada em lugar nenhum, os inversores se desligam automaticamente quando há manutenção nas linhas para proteger o trabalho dos técnicos da concessionária.

Uma solução para isso no futuro vão ser os veículos V2G (vehicle-to-grid), ou seja, carros elétricos que podem fornecer energia elétrica para a rede domiciliar uma vez que estejam plugados no carregador. Dessa forma, eles atuam como “baterias reserva” para casos de emergência, como os apagões.

Essa tecnologia, que permite que o fluxo bidirecional de energia entre o veículo e a estação de recarregamento, ainda é nova – só começou a ser mais comentada nos últimos três anos. Ainda há poucos modelos disponíveis comercialmente que fazem isso. Mas é uma aposta para o futuro. “Já é um tema frequente entre nossos associados a possibilidade de adotarem sistemas V2G ou, até mesmo, V2H (vehicle-to-home) off-grid no futuro”, afirma Almeida, da Abravei.

 

Fonte: https://www.automotivebusiness.com.br/